Luiz Lllantada

A vaca morta

08 Junho 2018 08:00:00

Devaneios de um E.T.: Amigos, conforme umas trocas de ideias que tive com alguns de meus raros e pacientes leitores, a partir desta semana, mais propriamente do dia 08.06.2018, Sexta-feira em diante, e assim sucessivamente todas às Sextas-feiras, estarei publicando uma série de cinco crônicas que escrevi, acatando uma sugestão do meu grande amigo Dr. Fernando Cordioli, Juiz de Direito, que tratam da minha experiência como trabalhador menor de idade. São elas: 1) - A vaca morta; 2) - Chegada a Porto Alegre; 3) - O dono do Mundo; 4) - Finalmente, meus doze anos; e 5) - O Sindicato.


A vaca morta

 No ano de 1950 morávamos em Caxias do Sul (RS). Éramos, como ainda somos, cinco irmãos; duas meninas e três meninos. Dos homens, eu tinha seis, o do meio nove e o mais velho dez. Foi quando fundamos uma empresa informal. Meu pai ganhava o suficiente apenas para sustentar a família. Não sobrava dinheiro para os supérfluos. Assim, eu meus irmãos tínhamos que nos virar para comprar balas, picolés, gibis e pagar o infalível matiné dos domingos.

 Dentre outras atividades de menor expressão, dedicávamo-nos à exploração do comércio de "ferro-velho". Intermediávamos a fonte de produção e o comércio de atacado. Saíamos pela vizinhança, à cata de osso, vidro, ferro, alumínio, cobre, chumbo, enfim, tudo que se pudesse fazer dinheiro. Nós mesmo construíamos carrinhos de mão, feitos com caixotes e rolamentos usados. Como se vê, também explorávamos o ramo de transportes.

 Percorríamos ruas e campos da periferia atentos a tudo. Nada nos escapava; panelas velhas, pedaços de metais, fios, ferros e ossos de qualquer bicho. Quando víamos um cachorro roendo um osso grande, de bom peso, nós o enxotávamos, fazendo-o abandoná-lo e, de imediato, o recolhíamos. Além da nossa, havia outras empresas do ramo, da molecada do nosso bairro. A concorrência era dura, mas leal e tudo divertido. A gente andava muito, suava e fazia força. Mas ganhava-se algum dinheiro. Quando tínhamos sede, batíamos em alguma porta para pedir um copo d'água. A maioria das pessoas nos dava, outras não. Este fato despertou a minha curiosidade infantil. Ali comecei a conhecer a humanidade. Descobri que havia pessoas boas e outras não.

 Um dia avistamos num campo o esqueleto de uma vaca. Ela havia morrido há pouco, pois ainda tinha alguns urubus roendo os ossos. Sentimos que aquilo seria o nosso grande negócio. Assim como fazíamos com os cachorros, também espantamos os urubus com paus e pedras. Eles voavam e nós não. Era infantaria contra força aérea. Foi uma dura batalha, mas vencemos.

 Os ossos brilhavam ao sol, diante de nossos olhos gananciosos. Pegamos umas cordas, amarramos no esqueleto, cujos ossos ainda estava interligados por cartilagens e saímos os três, arrastando a carcaça até o depósito do ferro-velho. Íamos pelos campos e ruas. Um bando de moleques nos cercava e todos fazíamos a maior algazarra. Pessoas paravam para nos olhar e rir, dizendo gracejos. Pesada a ossada, pegamos nosso dinheiro e rumamos para casa.

 Ao chegarmos, contamos para a mãe a nossa aventura. Ela não gostou muito da história e até nos reprendeu, mas não com muita energia. Na minha inocência de criança eu apenas sorria, feliz com o meu dinheiro, a minha cota da sociedade, já no bolso. Depois daquilo, nunca mais apareceu uma "vaca-morta" na minha vida. Tudo o que conquistei até aqui foi com muita luta.


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