Luiz Llantada

Cavalo encilhado

06 Abril 2018 08:00:00

Cavalo encilhado

  Os gaúchos lá da região onde nasci, na fronteira com Uruguai e Argentina, costumam fazer uso de aforismos repletos de sabedoria. São frases curtas, compostas de palavras que trazem sentido mais figurado do que literal. Elas expressam experiências vividas em guerras, no amor, na vida, enfim, quando vivenciaram sofrimentos, felicidades, alegrias, tristezas, erros e acertos. São adágios que os mais velhos vão deixando como lições de vida para os mais novos.

  Um dos provérbios mais bonito que conheço, pela sua linguagem poética e inteligente é "Cavalo encilhado não passa duas vezes". Quem nunca morou naquela região, não viveu épocas difíceis, ou não conhece a história do pampa, não sabe que o cavalo foi o melhor e até, às vezes, o único meio de locomoção que existia. Assim, esta pessoa poderá achar a frase de difícil entendimento.

  Antigamente, não havia maior humilhação para um gaúcho do que andar a pé. Desde criança, todos tinham a sua montaria. Mesmo os pobres, peões de estância, que não tinham, utilizavam cavalos que pertenciam aos seus patrões. Mais do que o anseio dos adolescentes de hoje de ter e poder dirigir um carro, era o desejo dos jovens daquela época de ter um cavalo. Aqueles que não tivessem o privilégio de nascer numa família abastada ou trabalhar numa fazenda que lhes propiciasse ter o seu, saíam campo a fora para conseguir um. Milhares de gaúchos miseráveis participaram de guerras e revoluções só pela alegria de ter um cavalo.

  De forma quê, aquele que estivesse muito necessitado e andasse a pé pelas coxilhas em busca de um animal, quando encontrava um desgarrado, mesmo em pêlo, obtinha uma grande conquista. Pegava o primeiro que aparecesse. Se tivesse, porém, a sorte de achar ou ganhar de presente um cavalo encilhado, então era o mesmo que ter acertado na loteria. Assim, o aforismo a que me refiro traz consigo a mensagem de que não se recusa nunca um cavalo encilhado, ainda que seja um matungo, eis quê, talvez, jamais se tenha outra ocasião igual.

                   Isto serve para pessoas muito exigentes, que deixam passar boas oportunidades, achando que mais adiante terão outra melhor. Não seria mais inteligente agarrar esta? Enquanto não aparece outra? Vale pra tudo, inclusive no amor. Às vezes uma pessoa deixa de namorar ou casar com alguém, achando que vai surgir outro melhor mais pra frente; mais bonito, mais inteligente, mais rico, ou mais qualquer coisa. Pode-se também utilizar em situações de empregos ou negócios.

                   Eu observo algumas pessoas, indecisas, perderem excelentes oportunidades de progredirem ou serem felizes, por não aceitarem as oportunidades que lhes surgem, por serem exigentes demais com empregos, pessoas ou coisas. Talvez por inexperiência ajam assim. Será que não estão deixando passar o "cavalo encilhado", de cujo desprezo por ele um dia hão de se arrepender? Mas aí já passou.


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