Luiz Llantada

Crônica

20 Abril 2018 08:00:00

Surrealismo em Sombrio

(Crônica de agosto de 2008)

 Quem chegasse a Sombrio hoje à noite, sem saber que aconteceria a maior festa do Município, que é o "Arraial Fest", pensaria estar sonhando, ou que pirou de vez. Isso por que é impossível alguém de bom senso imaginar quê, em pleno inverno, numa pequena e pacata cidade do interior catarinense pudesse acontecer um carnaval bem brasileiro, no melhor estilo carioca e baiano. O que essa pessoa não sabia, claro, é que aqui em Sombrio tudo é possível.

 Tenho andado muito por aí, mas nunca vi povo igual ao sombriense. Sua principal característica é a simplicidade. Depois vem a sua irreverência. O habitante de Sombrio tem extrema facilidade de aceitar e se adaptar a novas situações. Tudo aqui é muito espontâneo. Quando alguém sugeriu há cerca de dois anos que se poderia realizar um desfile de escolas de samba em pleno inverno do extremo-sul catarinense, durante o "Arraial Fest", eu duvidei. Porém, não deveria, se conhecesse melhor os habitantes locais, como hoje conheço.

 A propósito, quando cheguei aqui em 1982, para instalar a agência do Banco do Brasil, a primeira coisa que me chamou a atenção e me cativou foi as pessoas do lugar. Pensei comigo: é aqui que vou ficar. E fiquei. Em que pese seja um povo trabalhador e progressista, ele tem consigo um ar de inocência, bem ao meu gosto. Penso que é assim que todos deveríamos ser. É claro que temos que nos preocupar com os problemas e procurar resolvê-los, mas nunca deveríamos deixar fugir a criança que trazemos dentro de nós.

  A gente não fica adulto por que quer. A vida é que nos obriga a isso. Ninguém gostaria de se desfazer de seus brinquedos. Mas acontece que eles nos são arrancados das mãos. E ninguém vê as lágrimas escorrer dos nossos olhos. Nós só sensibilizamo-nos com as das crianças. Esse aspecto de adulto que a vida nos impõe, às vezes até de velhice, dá a impressão aos outros de que já amadurecemos emocionalmente, e que perdemos nossos medos. Em parte nós próprios somos culpados, porque fingimos ter uma segurança que não temos.

  Mas hoje à noite não! Pois será a noite de voltarmos a ser crianças. Não! Não te surpreendas se me vires rir e chorar ao mesmo tempo, na hora em que o cavaquinho der o tom da introdução do samba da nossa escola, a "Décima do Jacaré". Naquele momento mágico de pisar o asfalto da avenida, fantasiado, cantando e dançando, e nem com o mesmo comportamento que os nossos irmãos da outra escola, a "Carijós", certamente terão. Faças o mesmo, ainda que não estejas desfilando. Vem! Dança, canta, ri e te emociona. Se quiseres, podes chorar conosco, porque, afinal de contas, é isso que somos, é isso que é o Brasil: "um povo criança". E o mundo em que vivemos não passa de um sonho louco. E a vida... A vida, meu irmão, minha doce irmã, é um enigma indecifrável.


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