Luiz Llantada

Crônica

03 Agosto 2018 08:00:00

Frio de chorar

  Quando eu tinha cinco anos fui morar em Caxias do Sul. Numa manhã de inverno minha mãe me acordou e chamou-me à janela para mostrar a neve que caía. Meus olhos se arregalaram e brilharam de encantamento, ante à beleza do cenário. Morávamos afastado do centro, no alto de um morro, num local pouco habitado. Em frente a nossa casa havia um campo e um arvoredo. Ainda trago na mente a imagem daqueles flocos brancos como algodão, caindo lentamente sobre a relva e as folhas das árvores e arbustos.

  Enquanto eu tomava café a neve foi se acumulando e estendendo um tapete branco sobre a grama. Eu estava eufórico com aquele cenário que eu via pela primeira vez. Vesti a roupa mais quentinha que eu tinha e calcei alpargatas. Para quem não sabe, alpargatas era um calçado feito de lona com sola de cordas. Nada impermeável, pois não era a corda sintética que vocês conhecem, mas de juta. Talvez, juta alguns de vocês também não saibam o que é. Deixa pra lá. Certo é que tanto a sola como a parte superior das alpargatas não impediam a entrada de umidade. Pelo contrário, sugavam-na como um mata-borrão. Puxa! Hoje é o dia em que estou falando de coisas estranhas para vocês crianças e jovens. Desculpem-me, é da idade.

                      Mas vamos ao que interessa. Peguei uma bola de borracha e saí em desabalada corrida campo a fora. Eu e outras crianças corríamos e rolávamos na neve. Nós a pegávamos nas mãos e a jogava para cima, fazendo-a cair sobre nós. Àquela altura a neve já estava alta, com cerca de três a cinco centímetros. Meus pés se afundavam nela.

  Ora, como tu bem sabes, a neve é água num estado semissólido. Mas muito gelada. Foi aí que a umidade ultrapassou minhas alpargatas, ensopando minhas meias e chegando aos meus pés. No início não liguei, pois era acostumado a brincar em dias de chuvas. Acontece, porém, que a temperatura muito gelada daquela umidade foi, lentamente, se fazendo sentir nos meus pés, a ponto de encarangá-los. Bem, minha criança, se não sabes o que é encarangar, agora não tenho mais tempo nem espaço para explicar-te. Fiquemos assim.

                      Naquele dia eu descobri que o frio dói. E muito. Comecei a chorar de dor e corri para dentro de casa. Minha mãe me enrolou num cobertor, sentou-me à frente do fogão à lenha, esticando minhas pernas sobre uma cadeira e, abrindo a portinhola do fogão, colocou meus pés quase dentro do fogo. Serviu-me um café preto, bem quente, e pôs nele umas gotas de graspa, que é cachaça de uva. Parei de chorar... Em compensação, nunca mais parei de beber.


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