Luiz Llantada

Crônica

17 Agosto 2018 08:00:00

Cavalo encilhado

  Os gaúchos lá daquela região onde nasci, na fronteira com Uruguai e Argentina, costumam fazer uso de aforismos repletos de sabedoria. São frases curtas, compostas com palavras que trazem um sentido mais figurado do que literal. Elas expressam experiências vividas; amor, alegria, sofrimento, erros e acertos. São mensagem que os mais velhos vão deixando para os mais novos, como lições de vida.

  Um dos ditos gauchescos mais bonitos, pela sua linguagem poética, e mais inteligente, pelo seu conteúdo, é "Cavalo encilhado não passa duas vezes". Quem nunca morou naquela região e não viveu uma época difícil, em que o cavalo era o melhor meio de locomoção, pode achar a frase de difícil entendimento. Por isto, mesmo correndo o risco de ser mais chato do que sou, vou tentar explicar o sentido que o autor da frase, desconhecido é claro, quis dar.

  Antigamente, não havia humilhação maior para um gaúcho do que andar a pé. Desde criança, todo o piá tinha a sua montaria. Mesmo os pobres, peões de estância, utilizavam os cavalos, que pertenciam aos patrões. Mais do que o anseio dos adolescentes de hoje em ter e poder dirigir um automóvel, era o desejo dos homens do campo daquela região e época de ter um cavalo. Aqueles que não tinham o privilégio de nascer numa família que lhe propiciasse ter o seu, saíam campo à fora para conseguir, de uma maneira ou de outra, o seu cavalo. Milhares de gaúchos miseráveis participaram de revoluções e guerras só pela alegria de ganhar um cavalo.

  De forma que, aquele que estivesse necessitado de ter um cavalo e andasse a pé pelas coxilhas em busca de um, quando encontrava um animal perdido, mesmo em pêlo, já tinha obtido uma grande conquista. Pegava o primeiro que aparecesse. Se tivesse, porém, a sorte de encontrar um encilhado, solto no campo, então era o mesmo que acertar, hoje, numa dessas loterias que tem por aí. Assim, o aforismo a que me refiro traz consigo a mensagem de que não se recusa jamais um cavalo encilhado, porque, talvez, jamais passe outro.

  A frase se costuma dizer para pessoas que são muito exigentes, que deixam passar oportunidade que lhe são dadas, achando que, mais adiante, encontrarão outra melhor. Será que não seria mais inteligente agarrar esta, enquanto a outra não aparece? Isto vale para tudo, inclusive o amor. Às vezes uma pessoa deixa de namorar ou casar com alguém, porque acha que vai encontrar, no futuro, outro melhor; mais bonito, mais inteligente, mais rico, ou mais qualquer coisa. É muito comum utilizá-la em oportunidades de empregos ou negócios. Eu me lembrei de escrever sobre isto, porque eu vejo hoje em dia excelentes oportunidades para os jovens estudarem, trabalharem e progredirem, desde que estudem um pouco mais. O que vejo, porém, é um total desinteresse, desânimo e descaso. Talvez por serem inexperientes ajam assim. Será que não estão deixando passar o "cavalo encilhado", de cujo desprezo por ele um dia irão se arrepender? Mas aí já passou.


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