Crônica - Luiz Llantada

11 Outubro 2018 09:30:00

Aprendendo ao som de violino

  Todos tivemos, pelo menos um, professor na vida. Normalmente, nos primeiros anos escolares era aquela doce professorinha, não é mesmo? Graças a eles, agora estou escrevendo e tu estás me lendo. Segunda-feira, dia 15.10, estaremos comemorando o Dia do Professor. Não me canso nunca de homenageá-los, por considerar a profissão mais nobre que existe.

  O termo "professorinha" que usei aí no primeiro parágrafo foi um tratamento carinhoso. Hoje a gurizada costuma chamá-las de "tia" ou de "profi", mas se as tratassem de "mãe" não haveria exagero. Eu lembro com nitidez e com muita ternura de todas as minhas professoras do primário. Também me lembro dos demais professores subsequentes quê, por uma razão ou outra, mais se destacaram. Quero falar, porém, de uma em especial, a qual, eu sei, gostava muito de mim e eu dela: Dona Ida.

  Cheguei em Porto Alegre com nove anos, em 1953. Naquela época havia grande carência de escolas públicas. Então fui estudar numa modesta escolinha de madeira, na Rua Luís de Camões, ao lado da Igreja Santo Antônio, no bairro de mesmo nome. Ali conheci Dona Ida. Ela ministrava aulas para quatro séries, do segundo ao quinto ano. Tudo na mesma hora e num mesmo salão. Ah, e ainda preparava um grupo de ex-alunos para o exame de admissão ao ginásio, que era obrigatório naquele tempo. Ela tinha cerca de cinquenta anos, de origem alemã, solteira e não tinha filhos. Talvez por isso nos tratasse como tais. Fui seu aluno do terceiro ao quinto ano. Com ela aprendi português, matemática, geografia e história. E também a respeitar as pessoas.

  Não que ela fosse moleza. Não! Quando era preciso, Dona Ida baixava o cacete em nós. "Cascudos" e puxões de orelhas eram comuns. Também era obrigada, muitas vezes, aos berros, a ralhar conosco. O quê ela fazia ficando vermelha de braba. Gritava, suava, xingava e depois sentava à sua mesa e chorava. Eu me comovia muito e enchia meus olhos de lágrimas. De pena dela. Até hoje me comovo quando me lembro disso. Eu a amava como minha mãe. Eu disse pra vocês que hoje eu ia chorar.

  Quando "batia" para o recreio, nós meninos saíamos para o pátio numa correria tresloucada. A gente só queria jogar futebol. Não nos lembrávamos de ir ao banheiro, beber água e até mesmo de comer a merenda. Só queríamos jogar bola. Assim, ao voltar para dentro do prédio, estávamos agitados, suados, ofegantes e com todas as necessidades que não havíamos satisfeito ainda por fazer. Então começávamos a incomodar para que ela nos permitisse. Aquilo era todos os dias. Um inferno.

Ela, entre enérgica e carinhosa, administrava a balbúrdia com um sentimento misto de professora e mãe. Impossível não amá-la. Para acalmar-nos, mandava-nos sentar com a cabeça apoiada sobre os braços, pegava seu violino e tocava músicas para nós. Foi quando conheci Mozart, Chopin e Vivaldi, dentre outros Alguns alunos dormiam e roncavam. Ainda existem professores como Dona Ida? Que lecionam e tratam seus alunos com firmeza e amor? Penso que sim. É para estes que rendo a minha homenagem. Aos demais, que reflitam se estão fazendo o que realmente gostam.


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