Crônica, por Luiz Llantada

09 Novembro 2018 15:00:00

Lágrimas na vidraça

Aquele Domingo não poderia ter amanhecido mais triste. Fazia frio. O Céu carregado de nuvens escuras. A chuva fina, espessa, constante, vinda do mar com inclinação quase horizontal. Os pingos d'água tamborilavam de encontro à vidraça, provocando ruídos baixos e ininterruptos que faziam Branca meditar.

Ela estava na janela do apartamento, segundo piso, frente para o mar. Eram sete horas. Havia acordado cedo para fazer a mamadeira do filho mais novo. Depois que o menino dormira, Branca manteve-se acordada. Tinha perdido o sono. Olhou o tempo lá fora com o olhar triste. Sentiu um arrepio de frio correr-lhe pelo corpo. Cruzou os braços para aquecer-se, friccionando-os com as mãos. Abriu a boca num bocejo infantil. Era mais um fim-de-semana que o marido não viera. Isso a enchia de tristeza.

É bem verdade que nada lhe faltava. Tinha consciência disso. Nem para ela e nem para os filhos. Tinha uma casa confortável em Cachoeirinha e seu próprio automóvel. Agora estava veraneando. O marido alugara um apartamento à beira-mar. Será que isso é tudo que um ser humano precisa? Começou a divagar, fazendo um retrospecto de sua vida. Conhecera Mário quando tinha dezessete anos. Ainda era o tempo em que se namorava e noivava antes de casar. Por todas essas fases ela passou. Cenas daquela época flutuavam na sua imaginação como fragmentos de um filme. No seu semblante alternavam-se ora um sorriso ingênuo, ora um ar sério e carregado. Quando casou com Mário tinha vinte anos. Depois vieram os filhos, em número de três; dois meninos e uma menina. A vida não poderia ter-lhe dado tesouro maior, pensou.

Mário envolvia-se cada vez mais com os negócios. Ultimamente andava muito ocupado e preocupado. Branca dizia-lhe que não precisavam ter muito para serem felizes, desde que levassem uma vida mais simples. Propusera-lhe, inclusive, vender seu carro. Quem sabe a casa atual? Indo morar numa mais modesta? Ele não concordava. Era ambicioso. Sempre querendo crescer. Ganhar mais. Estabelecia parâmetros com conhecidos e concorrentes. E nessa luta, nessa ânsia de progredir, ia deixando a família de lado. Era um homem prático, mas pouco sensível. Ela, ao inverso, toda emoção.

Pensou na sua idade e sorriu; já passara dos trinta. Tinha consciência, porém, de que ainda era bonita e atraente. Em que pese honesta e discreta, não deixava de notar como os homens a olhavam e a tratavam. Alguns até bem mais jovens. Jamais cogitara trair o marido. Achava engraçado como algumas amigas haviam se separado, com tão pouco tempo de casadas. Outras, mesmo casadas, tinham aventuras. Sentiu o rosto ruborizar-se levemente. Baixou os olhos para o chão, encabulada com os próprios pensamentos. Reconheceu: não teria coragem. Sua formação não lhe permitiria agir diferente. Ah! Mas se ao menos tivesse sol, para ir à praia com as crianças. Mas agora esse clima... Nublado, frio e chuva fininha. O vento uivava de encontro ao edifício. Sentiu o coração apertado. Encostou o rosto na vidraça e não conseguiu evitar que lágrimas escorressem por ela. Lá fora a chuva caía insistentemente.


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