Crônica, por Luiz Llantada

14 Dezembro 2018 10:45:00

Meu amigo Pé de Pano

Quando estudante de Direito na década de setenta do século passado, conheci uma das pessoas mais fascinantes da minha vida: meu amigo "Pé de Pano". Ele tinha uns trinta anos, estatura média e magro. Com bastante cabelo, trazia-os sempre bem penteados para trás, tipo cantor de tango. Um tom grisalho lhe enfeitava as têmporas. Olhos azuis, nariz grego, trazia consigo sempre um sorriso maroto. Vestia-se com esmero e sabia fazer combinações de tom sobre tom. Sapatos sempre imaculadamente lustrados. Em que pese ninguém duvidasse da sua masculinidade, falava e tinha trejeitos como se fosse homossexual, isto por ter sido criado só por mulheres (vó, mãe, irmãs e tias). Era um autêntico "gentleman".   

Como não existe pessoa perfeita, Pé de Pano, claro, tinha um defeito. Era um sedutor excêntrico. As mulheres o adoravam. Ele, porém, tinha um fraco por mulheres comprometidas; namoradas, noivas, companheiras, e até casadas. Como eu era muito seu amigo, e gostava dele, tentei dissuadi-lo dessa conduta perigosa. Ele, por sua vez, disse-me: - Impossível! Aí explicou-me que tinha uma atração incontrolável por mulheres comprometidas e quê, inclusive, só sentia tesão com estas. O perigo lhe excitava. Eu e meus companheiros o largamos de mão. 

Lá pelas tantas ele se encantou com uma colega nossa de aula. Linda como o diabo. Muito parecida com a Sophia Loren. Bem, se vocês não sabem que foi Sophia Loren, nada posso fazer por vocês. Nós sentimos cheiro de sangue, pois esta colega era noiva de um sargento da heroica Brigada Militar, o qual andava sempre armado, mesmo de folga. Pé de Pano jogou todo seu charme pra cima da moça. Ela, claro, se deixou seduzir. Saíram algumas vezes. Na faculdade andavam sempre juntos. 

Na vida nunca falta um filho da puta pra escrever uma carta anônima. E aconteceu. O bravo sargento resolveu dar um flagra no apaixonado casal. Estávamos todos num final de noite de sexta-feira, no barzinho bebendo cerveja. Pé de Pano e a nossa "Sophia", na penumbra de uma mesa de canto, trocavam confidências.  

De inopino, entrou o noivo, furioso. Dirigiu-se à mesa dos dois e perguntou: - "Mas o que é isso?" Pé de Pano não se apavorou. Era um artista. Na mesma hora fingiu-se de bichinha, falando como tal, com gestos efeminados, lançava olhares lânguidos para o irado militar, simulando assediá-lo. Disse à "Sophia": - "Que noivo lindo tens... Um gato!" Diante disso, o bravo sargento deixou-se enganar. Sentou-se à mesa e ficaram os três conversando e bebendo. Uma semana após, perguntei a Pé de Pano, como estava a situação. Ele respondeu-me: - "Mais ou menos, me livrei da moça, mas não consigo me livrar do noivo, que se apaixonou por mim". Quanto ao apelido, é porque, ao caminhar, não fazia barulho, como se tivesse pés de pano. Assim, estava sempre pronto a dar um bote fatal, ou fugir sorrateiramente.    


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