Luiz Llantada

Finalmente, meus doze anos

29 Junho 2018 08:00:00

Finalmente, meus doze anos

  Em 1956, chegara a minha tão sonhada idade de 12 anos, e eu havia concluído o ensino primário. Agora me sentia um homem... Um doutor. Em janeiro de 1957 comecei a trabalhar como "office-boy" na Chapelaria Bento, na Rua dos Andradas, nº 1582, no centro de Porto Alegre. Eu ganhava 50% de um salário mínimo, o que era permitido por lei. Neste emprego eu varria a loja e as calçadas; lavava os banheiros, recolhia papel higiênico e o lixo; fazia pequenos serviços de rua e, principalmente, entregava mercadorias a domicílio.

  Usar chapéu era moda. Um homem sem ele era considerado miserável ou sem personalidade, em que pese os cafajestes também os usassem. Os grã-finos compravam os seus, mas não os levavam pelas ruas, pois as caixas que os embalavam eram grandes. Carregá-las era deselegante. Alguns encomendavam por telefone três ou quatro modelos, para experimentá-los em casa. E lá ia eu entregá-los. Eu era pequeno para minha idade, e magrinho. Tinha doze anos, mas aparentava nove ou dez. Certamente uma figura exótica, com aquelas caixas enormes nos braços.

  Eu realizava entregas por toda cidade. Quando era em bairros distantes, meus patrões me davam o dinheiro para a condução. Às vezes, eu fazia a pé longos trechos, a fim de ficar com o dinheiro da passagem. Os bondes não tinham portas. Assim, eu usava a minha destreza, que não era pouca, para, quando o cobrador se aproximasse, saltar do bonde em movimento. Claro, para ficar com o dinheiro da passagem. Havia certo risco. Mas viver é correr riscos, eu aprendera nos filmes. Ao entregar chapéus em hotéis ou em casas de gente rica ou de classe média alta, as pessoas que me atendiam, ficavam surpresas com a minha aparência; praticamente uma criança com aquelas caixas enormes nas mãos. As reações emocionadas eram lucrativas para mim, pois as gorjetas ficavam mais generosas.

  Algumas mulheres, ao me atenderem, mandavam-me entrar e sentar, enquanto os homens experimentavam os chapéus. Nesse ínterim, ficavam perguntando a minha idade, o meu nome, se eu estudava, etc. e tal. Era comum brindarem-me com uma fatia de bolo, um refrigerante, um chocolate ou balas. Gorjetas em dinheiro sempre, repito.

                   Hoje não sinto vergonha de dizer que muitas me abraçavam e até me pegavam no colo. Diziam que tinham filhos ou netos parecidos comigo e me beijavam, deixando-me marcas de batom pelo rosto, com as quais eu saía pelas ruas inadvertidamente. Algumas mulheres eu vi chorar, disfarçando as lágrimas, enquanto me abraçavam. Eu não entendia o porquê. Agora, choro por elas. Essa fase durou oito meses, pois logo iria trabalhar em escritório. Mas isto é assunto pra próxima crônica.


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