Crônica

Luiz Llantada

15 Junho 2018 08:00:00

Chegada a Porto Alegre

  Depois do episódio da "Vaca morta", ocorrido em Caxias do Sul, que narrei na última crônica, ainda fomos morar em Passo Fundo, por dois anos, donde saímos com destino a Porto Alegre, em 1953. Eu tinha, então, nove anos. Meus dois irmãos homens já contavam doze e treze, respectivamente. Eles foram trabalhar no comércio e eu permaneci estudando, pois minha mãe não abria mão de que eu me formasse no ensino primário.

  Mas eu não me limitava só em estudar, pois minhas necessidades para os supérfluos, em especial, as matinés dos domingos, permaneciam. Ir ao cinema, para mim não só era uma questão de honra, como a minha maior alegria de viver. Diante disso, continuei no ramo de "ferro-velho", juntando pelas ruas e terrenos baldios tudo o que pudesse se transformar em dinheiro. Agora, porém, eu tinha duas grandes vantagens; uma, a experiência, outra, que passei a trabalhar como autônomo, pois não precisava mais repartir os lucros com meus irmãos. Eu era o dono do meu próprio negócio. Eu mesmo programava meus roteiros e horários.

  Sendo a Capital gaúcha uma cidade cosmopolita, é evidente que novas oportunidades me haveriam de surgir. Assim, conheci a tal de "feira livre", muito comum naquela época, pois não existiam supermercados como hoje. A feira consistia-se num conjunto de barracas de lonas, montadas uma vez por semana, numa certa rua de um bairro qualquer. Vendia-se de tudo em termos de alimentos. E tudo barato. As frutas e verduras eram sempre fresquinhas. As donas de casas adoravam.

  A primeira vez que fui numa "feira livre" foi com minha mãe, levando meu carrinho de mão, para transportar suas compras. Na verdade, ela levou-me para ensinar-me. Noutros dias, ela apenas escrevia uma relação do que comprar e eu ia sozinho. Comprava e transportava. Mais uma vez, porém, uma estrela lá no Céu brilhou para mim. Notei que alguns meninos ficavam reunidos, com seus carrinhos de mão vazios e pessoas vinham contratar-lhes para fazer fretes. Meus olhos se arregalaram. Era a oportunidade de ampliar meus negócios.

  Passei a ir bem cedo à feira. Pegava a lista de compras de minha mãe no dia anterior e saía bem cedo no dia seguinte. Muitas vezes, eu lá chegava e ainda era escuro. Fazia as compras dela, ia ligeiro para casa e voltava correndo para fazer fretes. Não tinha calor, frio ou chuva que me impedisse. Muitas vezes, sob protestos de minha mãe, eu fugia, para honrar meus compromissos, mas, é claro, sempre pensando nas balas, chocolates, gibis e nas matinés dos domingos. Isso tudo eu fiz até completar o quinto ano primário e a idade de doze anos, quando, então, partiria para o trabalho de menor no mercado formal. Mas isto é assunto para a próxima crônica.


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