Crônica

Luiz Llantada

06 Julho 2018 08:00:00

O Sindicato

  Agora eu tinha treze anos. Numa certa manhã entrei num barzinho que eu costumava ir. Olhei em volta e vi dois circunspectos senhores, de terno e gravata, que me chamavam a sua mesa. Chegando a eles, perguntaram o meu nome, a minha idade e o que eu fazia. Respondi-lhes tudo, falando que trabalhava na Chapelaria Bento, ali próximo. Indagaram-me então se eu gostaria de trabalhar em escritório, mais propriamente no Sindicato dos Empregados no Comércio de Porto Alegre, na Rua dos Andradas, nº 1624, que eu conhecia bem.

  De início, pensei comigo: esses caras tão de sacanagem. Eu era muito cuidadoso, pois meus pais, meus irmãos e pessoas mais velhas me alertavam dos perigos que corre uma criança numa cidade grande. Mas fui conferir. Apresentei-me no Sindicato e conheci uma das pessoas mais fascinantes da minha vida: o Secretário Geral, Darcy Gross, ex-deputado federal da Constituinte de 1946. Ao ver-me, pequeno e magrinho, achou-me muito criança. Notei que ficou comovido.

  Após a entrevista ele mandou que eu e meu pai fôssemos ao Juizado de Menores, para obtermos um alvará que me autorizasse a trabalhar. Em 01.09.1957, comecei no emprego dos meus sonhos. Ali eu permaneceria até os vinte anos, tendo me afastado um ano para o Serviço Militar. No mesmo local estudei Datilografia, o Ginásio e cursei o Técnico em Contabilidade. Tudo à noite. Era um universo diferente de tudo que eu conhecia. Até Biblioteca tinha. Eu convivia num ambiente altamente politizado. Sempre frequentando cinemas e lendo livros freneticamente.

  Dentre as inúmeras funções que eu tinha, uma era ler diariamente os principais jornais do RS; Correio do Povo, Folha da Tarde, Última Hora (mais tarde veio a ser Zero Hora), Jornal do Comércio e Jornal do Dia (que era da Igreja Católica). Lia e recortava as notícias de interesse do Sindicato, colava-as num livro especial e punha sobre a mesa do Presidente, para ele lesse quando chegasse. Mas, é claro, eu lia também tudo o que me interessava. A assim fiquei conhecendo o Mundo.

  Outra tarefa que muito me agradava era aguardar nas estações rodoviária e ferroviária políticos e personalidades que vinham do interior. Eu tinha verba para custear despesas, tais como táxi (que a gente chamava de "carro de praça") e refeições. Eu os levava a todos os lugares; hotéis, repartições públicas e privadas, sindicatos, pontos turísticos, restaurantes e, não poucas vezes, na zona do meretrício, quando me pediam. Eu trabalhava, mas passava bem e me divertia demais. E aprendi muito. Eu teria muito mais coisas para contar-lhes, mas o espaço aqui não me permite. Deixo, então, por conta da imaginação de cada um. Assim, narrei de maneira sucinta e, às vezes, grotesca toda a minha vida como trabalhador menor de idade.


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