RADIO.jpg
Luiz Llantada

Noites de bacará

09 Fevereiro 2018 08:00:00

Crônica por Luiz Llantada

Noites de bacará

 Criada com muita repressão, filha única, Lucinha não suportava mais os cuidados de que era alvo de parte de seus pais e da vigilância incansável dos falsos moralistas de sua cidadezinha. Bonita e inteligente, ela sentia todas as sensações dos jovens de sua idade, mas as reprimia.

 Foi então que Lucinha viu no Alaor a chance da sua liberdade. O rapaz possuía um armazém bem sortido e com boa freguesia. Noivaram e acabaram casando. Passado o tempo ela notou que não era bem o que sonhava. Houve no início momentos de felicidade, com a satisfação sexual e a estufa de carinho que o marido lhe cercara. Mas quem pode prever os sonhos e as fantasias que povoam a mente e a imaginação de uma mulher sonhadora? Ah! As mulheres...

 Para Alaor a vida se resumia em trabalhar, ganhar dinheiro e dedicar-se à família. Era um açoriano tradicional; bom, honesto e trabalhador. Os negócios iam bem. Tinha um filho que se parecia com ele. E ainda havia Lucinha. Quanto mais o tempo passava ficava mais bonita e sensual. De menina passara a mulher. Ela, porém, andava calada pelos cantos. Lutava com um drama de consciência que a martirizava. Gostava e admirava o Alaor. Mas não o amava como antes.

 Na pequena cidade onde viviam nenhum homem a atraía. Mas os caixeiros viajantes, educados e bonitos, eram diferentes. Um, em particular, fazia Lucinha suspirar. Ela contava os dias em que ele viria. Então dava um jeito de aparecer no balcão. O nome era Gledson. Nome de artista de novela, pensou.

 Gledson notou que Lucinha se interessava por ele. Intensificou as visitas ao armazém. Alaor era chegado num joguinho de cartas, chamado bacará. Numa noite Alaor saiu para mais uma noitada de bacará. Gledson, aproveitando a deixa, lançou uma cartada decisiva em cima da dama sonhadora. Deu certo.

 Entre o Céu e a Terra nenhum segredo sobrevive. A cidade se inteirou do caso. Passou a ser o assunto do dia. Todo mundo sabia e comentava o romance. Menos o Alaor, é claro. Entretanto nunca falta uma pessoa ruim e invejosa que, vendo a felicidade de alguém, não resiste a tentação de destruí-la. Sob pretexto de uma falsa moral, uma carta anônima foi escrita.

 As lágrimas de Alaor mancharam o fatídico papel. Preocupado em não dividir o patrimônio e não separar-se do filho, decidiu-se por uma saída prática. Conversou com Lucinha, que pediu perdão, e choraram abraçados. Decidiram dar-se uma nova oportunidade. Gledson, avisado da maldita carta, e com medo, não mais visitou o armazém do casal. Movimentaram-se as pedras no tabuleiro da vida. O tempo, inexorável, passou. A rotina se repetia. Os olhos de Lucinha voltaram a ser tristes. Longe, na estrada de chão que dá acesso à cidade, a poeira se levanta. Veículos chegam e partem. Novos viajantes visitando a clientela. Um carro se destaca. Uma voz. Um olhar. Um homem. O coração de Lucinha volta a disparar. O bacará continua animando as noites da cidade.


logo.jpg

Endereço:
Rua Manoel Teixeira da Rosa, 495
Centro - Sombrio
Fone (48) 3533 0178