Luiz Llantada

O dono do Mundo

22 Junho 2018 08:00:00

 Faz parte da minha infância uma carreira profissional que começou quando eu tinha aproximadamente seis anos. Eu era assessor de outros empresários um pouco mais velhos e experientes do que eu, dentre os quais, dois eram meus irmãos. Todos ainda crianças, residentes nos mesmos bairros das cidades onde moramos, como Caxias do Sul, Passo Fundo e Porto Alegre. Isso no início da década de cinquenta do século passado. 

 Nosso ramo era reciclagem. Notem, então, que essa atividade não é muito recente. O nosso uniforme consistia em calção, pés descalços e peito nu. Juntávamos pelas ruas, terrenos baldios e campos: garrafas, vidros, ossos (não descartada a possibilidade de havermos recolhido alguns de humanos, sem o sabermos, claro), mais ferro, chumbo, alumínio, bronze e cobre. Nada nos escapava. Éramos como ratos. Recolhido o que podíamos carregar com os meios disponíveis, dirigíamo-nos a um "ferro-velho" e lá vendíamos a mercadoria. Aí então era uma festa. Comprávamos refrigerantes, balas, gibis e, evidentemente, íamos sempre às matinês dos domingos.

 Em Porto Alegre, eu fiz dez anos. Como tinha experiência empresarial, resolvi ser autônomo. Consegui um caixote de sabão e uma roda de triciclo achada no lixo e construí um carrinho de mão. Pintei-o de azul e desenhei um distintivo do Grêmio. Saía com ele para fazer o mesmo trabalho, porém, agora sozinho, para não ter que dividir o dinheiro com ninguém. Uma vez por semana tinha feira livre no nosso bairro e eu, depois de fazer as compras para minha mãe, fazia carretos para a vizinhança e cobrava. Algumas donas de casa, vez que outra, me pediam para ir numa farmácia, num armazém ou fazer um servicinho qualquer... E me davam gorjetas.

 Aos doze anos, me formei no ensino primário. Agora eu era um "doutor". Tinha que trabalhar em algo mais refinado, compatível com a minha formação. Consegui um emprego no comércio, numa chapelaria, na Rua da Praia, como "office-boy". Entregava chapéus nas residências, em hotéis ou onde quer que o freguês quisesse. Ia a bancos, correios, repartições públicas e ao diabo-a-quatro. Quando era longe, davam-me dinheiro para pagar o bonde, o que nem sempre eu fazia, pois saltava dele andando, antes que o cobrador chegasse até mim, já que os bondes não tinham portas. Para tanto, tinha que se ter destreza, o que não me faltava. Se fosse mais ou menos perto, eu ia a pé, mas cobrava a passagem.

            Pequeno e magrinho, quando eu chegava em hotéis, empresas ou residências as pessoas se encantavam comigo, especialmente as mulheres, pois me achavam muito criança. Eu exteriorizava uma imagem inocente e frágil. Nesses casos a gorjeta era generosa, além de balas e chocolates que, às vezes, rolava. Algumas mulheres, comovidas, ajoelhavam-se, me abraçavam, me beijavam e me chamavam de "meu filho". Juro que eu vi lágrimas em alguns olhos. Faceiro, com manchas de batom pela testa e pelo rosto, eu saía pela rua, com as moedas tilintando nos bolsos. Eu me achava o dono do mundo.


logo.jpg

Endereço:
Rua Manoel Teixeira da Rosa, 495
Centro - Sombrio
Fone (48) 3533 0178