12-01-2018

O sedutor

12 Janeiro 2018 00:00:00

Na década de sessenta do Século passado, eu e milhares de jovens brasileiros nos dirigimos para o interior do País, a fim de trabalharmos no Banco do Brasil. A maioria oriunda de grandes cidades onde havia sido realizado o concurso para tal fim. Vimo-nos, de repente, morando em pequenas e pacatas cidadezinhas.

  As moças do lugar aonde chegávamos assediavam os novos habitantes, em busca de um casamento promissor. Menos a mim, claro, pois já chegara casado. Sobravam meninas para namorar. Naquela época, o Banco do Brasil pagava muito bem aos seus funcionários. Era o emprego sonhado. Quase todas procuravam aproximar-se da meninada do BB. Digo "quase" porque havia uma garota muito confiante em si, que não dava bola para o pessoal. Era a Graça. Conhecida como "Gracinha".

  Só podia ser "Gracinha" mesmo, alguém tão graciosa. Tinha dezesseis anos. Cruza de alemão com "pelo duro", dera uma morena de cabelos lisos, compridos e pretos como carvão. Tinha olhos azuis. Estatura mediana, magrinha, bundinha arrebitada e peitinhos salientes, mas delicados. Andava pelas ruas suavemente, como se estivesse dançando balé, confiante da sua beleza. Nossos colegas mais bonitos tentaram conquistá-la, sem obter êxito. A moça se preservava. Era simpática, educada e amável, mas não namorava ninguém. Tinha receio de vulgarizar-se. Ah! Sonhava em casar.

  Um dia, veio trabalhar conosco um carioca, de nome Lucas. Logo que chegou, botou os olhos na Gracinha e foi, de pronto, perguntando quem era. Deram-lhe a dica: "Pode esquecer! Com esta, não vais conseguir nada". Para ele, carioca da gema, sedutor contumaz, foi um desafio. Apostou com a turma que conquistaria a menina.

  Descobriu que ela trabalhava numa loja de presentes. Ela pouco o conhecia, pois ele havia chegado muito recentemente. Lucas adentrou na loja, muito sério, e dirigiu-se, de imediato, à Gracinha. Chegou para a moça e fingiu-se de tímido e indeciso. Pediu-lhe que o ajudasse na escolha de um presente, pois conhecera uma moça muito bonita e atraente, da qual se apaixonara, ainda que ela não soubesse. Por isto queria impressioná-la. Falou que não importava o preço... Queria o melhor. Algo quê, por exemplo, ela própria gostaria de ganhar. Gracinha, muito atenciosa e prestativa, foi cumprir sua missão. Sugeriu um perfume importado, bem da moda, porém, muito caro. Achou até que o rapaz, pelo preço, não o compraria.

  O rapaz decidiu - "Fico com este"! A balconista passou a fazer um pacotinho bem caprichado. Ele, fascinado, admirava a habilidade e a delicadeza dela, com aqueles cabelos lindos caídos sobre os olhos. Lucas pagou-lhe. Gracinha estendeu-lhe a mão com o pacotinho, mas ele não o pegou. Apenas sussurrou: "O presente é pra ti." E deu-lhe as costas, retirando-se. Mesmo morena, Gracinha ficou ruborizada. Espantada! Não soube o que dizer. Ficou muda. Paralisada. Parecia uma Deusa com aquele brilho no olhar. Um nó trancou sua garganta e seus olhos ficaram inundados de lágrimas, não conseguindo evitar que algumas lhe escorressem pela face. Mais linda do que era, permaneceu ali, estática, com o pacotinho ainda na mão suspensa no ar.


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