RADIO.jpg
19-11-2018

O sedutor II

19 Janeiro 2018 00:00:00

Esta é a continuação da crônica "O sedutor", publicada na semana passada. Todos lembramos o quanto gracinha ficou impressionada com o inesperado presente que ganhara de Lucas. Pela primeira vez em sua vida um rapaz despertara sua atenção com tanta intensidade. Ela queria e precisava revê-lo, portanto, aguardou que ele a procurasse. Mas a estratégia do moço era outra.

  Orgulhosa, não queria dar o braço a torcer. Como ele não a procurou toda a semana seguinte, decidiu que na segunda-feira iria esperá-lo à tardinha na saída do Banco. Foi o que fez. Ela estava de pé no canteiro do meio da avenida, com uma sacolinha de plástico na mão. Trajava um vestidinho rodado, discretamente decotado e bem curtinho, pois a minissaia era a moda da época. A cor amarela da roupa destacava sua pele trigueira. Os cabelos negros, compridos e soltos ornamentavam a sua imagem de deusa egípcia. Não usava maquiagem, pois a sua juventude dispensava.

  Lucas, surpreso, arregalou os olhos e, sorrindo, chegou até ela. Colocou as mãos sobre seus ombros e deu-lhe um beijo no rosto. Não um beijo formal. Mas sim um mais demorado e úmido, deixando seus lábios quentes sobre aquela pele macia por alguns segundos. A moça espantou-se e recuou. Ele se fez que não notou. Então brincou: - Ué, demorou a vir, hein? Ela respondeu, séria: - Eu não vim pra isso. Vim devolver o presente. Ele apenas sorriu e perguntou-lhe se não havia gostado, ao que ela respondeu que gostara demais, mas não da sua atitude posterior em não procurá-la.

  O rapaz argumentou que a boa educação e a etiqueta mandam quê, quem recebe uma honraria tem a obrigação de agradecer. A moça respondeu que eles não tinham intimidade nenhuma para ele lhe dar um presente, tão valioso. Ele retrucou, desde quando é preciso intimidade para se ter um gesto de delicadeza com alguém? Gracinha então disse que ela fora educada assim, tanto em casa como na Igreja, a não dar confiança para estranhos. Mas eu não sou um estranho! Eu sou um ser humano. E se tu foste educada dessa maneira, vais ter que te reeducar. Tu estás sendo grossa, não age como uma dama. Isso não é compatível com a beleza e a graça que irradias. O presente é teu. Não quer? Joga no lixo. E mais uma vez deu-lhe as costas.

  Ela foi para casa, mal jantou e se recolheu ao quarto. Deitou-se, pôs a cabeça no travesseiro começou a chorar. Nunca alguém havia lhe tratado com tanta dureza. Passou a ponderar as palavras de Lucas e achou que ele tinha razão. Talvez ela até não tivesse sido grossa, mas indelicada. Lembrou-se de outras situações, parecidas, quando ela tinha sido indiferente, fria e humilhara outros moços que tentaram se aproximar dela. Sentiu um profundo remorso. Achou-se desumana. E chorou copiosamente. Afinal de contas... Ela não era má. Apenas despreparada para a vida.

  No dia seguinte, à mesma hora, no mesmo local esperou Lucas sair do Banco. Quando ele a viu, veio correndo abraçá-la. Nada falou. De cara, deu-lhe um beijo na boca. Demorado e molhado, sentindo o gosto salgado das lágrimas que jorravam dos olhos de Gracinha. Os grandes amores, as grandes paixões nascem assim.


logo.jpg

Endereço:
Rua Manoel Teixeira da Rosa, 495
Centro - Sombrio
Fone (48) 3533 0178