Entrevista

Um adeus com ares de missão cumprida

16 Fevereiro 2018 11:52:00

Raimundo Colombo fala sobre os desafios e conquistas frente ao Executivo, além dos planos para o futuro

O governador Raimundo Colombo tem usado, nos últimos dias, os poucos momentos de folga para recolher objetos pessoais e organizar sua saída da Casa D'Agronômica, residência oficial do governo de Santa Catarina que ele ocupa desde 2011, quando iniciou seu primeiro mandato. A edificação em estilo colonial, inaugurada em 1954, localizada no bairro Agronômica, em Florianópolis, serviu para receber autoridades, imprensa, eventos do governo, durante os cerca de sete anos da gestão do pessedista lageano de 63 anos. 

Foi iniciado o processo de transição do cargo para o vice-governador Eduardo Pinho Moreira (de Criciúma), que assumirá o governo a partir desta sexta, dia 16 deste mês, quando Colombo sairá de licença para cuidar da saúde, colocada algumas vezes em segundo plano durante a gestão, como ele mesmo diz, e para fazer um curso no exterior. Posteriormente, Colombo entrará na disputa por uma vaga no Senado, em meio a uma eleição imprevisível, como classificou, preocupado com a falta de confiança do eleitor, cada vez mais desacreditado das instituições políticas.

Colombo enfrentou momentos de turbulência, como no caso das declarações dos executivos da Odebrecht e da JBS, em abril e maio de 2017. A onda de atentados praticados por grupos criminosos também tumultuou a gestão, provocando noites de insônia ao governador e principalmente à equipe ligada à Secretaria de Segurança Pública.

Paralelo a isso, Santa Catarina permaneceu no topo de indicadores invejados por outros Estados, como na geração de emprego. Reflexo do equilíbrio fiscal, concretizado depois de uma iniciativa que deu à Colombo status de protagonista nacional na revisão da dívida pública dos Estados com a União. Um movimento interno que partiu do então secretário de Fazenda, Antonio Gavazzoni, mas que inicialmente não mereceu muita expectativa do chefe do Executivo. "Ninguém acreditava", disse o governador, num tom de quem revela que a medida por pouco não deixou de ser levada adiante.

Em entrevista à Rede Catarinense de Notícias (RCN), Raimundo Colombo fala sobre essas e outras questões que moldaram a sua gestão, iniciada em 2011 e que será encerrada em abril, com a renúncia formal ao cargo de governador.

Rede Catarinense de Notícias - Como está sendo conduzida a transição do cargo para o vice Eduardo Pinho Moreira?

Raimundo Colombo - Eu fiz um curso sobre desenvolvimento pessoal na Espanha e já cumpri algumas etapas. Agora eu devo finalizar. Também tem um evento de turismo que o governo federal solicitou que eu participasse, que trata da atração de investimentos e de turistas para o Brasil e que vai ser no mês de março. Então, tenho esses dois compromissos, ainda, antes de construir um cenário político para poder ser candidato ao Senado.

RCN - O senhor sairá de licença, mas assumirá novamente em algum momento para formalizar a renúncia, em abril?

Colombo - Não. A Lei de Responsabilidade Fiscal impõe um compromisso muito grande para quem assume os dois últimos quadrimestres. A partir de 1º de maio o governo não pode fazer quase nada em função dessa lei. Só pode gastar o que arrecada e só tem condições de fazer convênios e contratos que vão até dezembro. Mas isso corrige um problema que existia no passado, que era deixar dívidas para o novo governante. Se a pessoa assumir no dia 7 de abril, praticamente não tem mais tempo pra nada. Eu acho que é meu dever fazer uma transição pacífica, harmoniosa. O ideal é até mesmo que os catarinenses nem percebam que houve mudanças, que a estrutura continue prestando serviços normalmente.

RCN - O que o senhor considera mais importante, um legado da administração Colombo?

Colombo - A coisa que eu considero mais importante é o equilíbrio fiscal e as ações em relação à crise. Eu sinto que a maioria dos catarinenses hoje diz que o nosso Estado está muito bem, que é um Estado melhor que os outros. É o que teve o maior crescimento do PIB. Mesmo sendo um Estado pequeno, com apenas 3,5 % da população do Brasil, foi o que mais gerou empregos em 2017 em termos absolutos. Ou seja, Santa Catarina tem excelentes números. Esse é o aspecto mais positivo, além do que foi o Estado que teve o melhor resultado perante a crise. Eu acho fantástico. O governo não aumentou impostos, pelo contrário, baixou, deu continuidade às obras, fez o pagamento dos salários em dia, manteve todos os serviços públicos. A crise aqui foi menos grave, pois Santa Catarina foi o último Estado a entrar nela e o primeiro a sair.

RCN - Que medidas foram mais eficazes para que isso fosse possível?

Colombo - Em um determinado momento, depois que assumimos o governo, a receita começou a cair e as despesas estavam aumentando. As pessoas precisavam mais educação, mais saúde. De um lado aumentavam os custos e de outro caía a receita. Todos os Estados foram no caminho de aumentar impostos, quebrar contratos ou retirar incentivos fiscais. A primeira das medidas foi a renegociação das dívidas. Ninguém acreditava, foi uma briga forte com o governo federal. O trâmite foi judicializado, mas a nossa tese acabou prevalecendo. Uma grande vitória. Isso foi fundamental. Segundo ponto: fizemos muitos ajustes internos. Demissões, fechamentos de empresas do governo, exclusão de contratos. Cortamos tudo o que podíamos de custeio, e hoje isso é menor do que há cinco anos. A terceira medida foi a Reforma da Previdência, que teve um impacto muito significativo. O resto foi a gestão do dia a dia. Um período de sacrifício. Agora começou a melhorar. Em dezembro tivemos uma receita recorde. Janeiro "explodiu" e tivemos um crescimento extraordinário. Em fevereiro tudo indica que também será muito alto [o crescimento]. É isso que os indicadores nos mostram.

RCN - A renegociação da dívida foi um momento de protagonismo catarinense que acabou criando um movimento também nos outros Estados. Como foi encabeçar essa reivindicação nacional?

Colombo - A Secretaria da Fazenda apresentou a questão como sendo possível, mas, sinceramente, ninguém acreditava. Aí começamos a fazer a negociação com o governo federal, mas logo a gente percebeu que não conseguiríamos. A ação decisiva foi ter a coragem de ingressar na Justiça e fazer um trabalho de informação juntamente com todos os ministros, demonstrando para eles que aquele juro era extorsivo e totalmente impraticável. Quando a gente percebeu que sozinhos não conseguiríamos, formamos um grupo de governadores e começamos a articular. No início foram sete. A partir daí a coisa começou a "deslanchar".

RCN - Segurança pública é considerada uma área de extrema relevância para o governo. Santa Catarina passou por atentados, que geraram situações de pânico para a população. Isso serviu para repensar ações nessa área, ou mesmo ampliar a estrutura?

Colombo - Avançamos muito em segurança pública. O serviço de inteligência de Santa Catarina é hoje um dos mais bem equipados do Brasil. Aumentamos o efetivo. O sistema prisional também foi ampliado. Enfim, tivemos grandes conquistas na área e eu devo reconhecer e dar os parabéns à nossa equipe pelo belo trabalho realizado. Agora, não temos como esconder que a violência é cada vez maior. O problema é cada dia mais grave. Os desafios para o futuro serão maiores do que aqueles que nós temos hoje, e não dá para baixar a guarda. Ainda há muito por fazer, e esse trabalho precisa ser continuado. Essa é uma questão que não se resolve numa tomada de decisão. É uma caminhada de longo prazo. Considero que esse é um dos maiores desafios da sociedade brasileira.

RCN - Investimentos de grandes empresas estão sendo anunciados para este ano em Santa Catarina. O que é possível adiantar a respeito disso para 2018?

Colombo - Há uma procura junto ao governo para pleitear incentivos fiscais. Além disso, a busca de recursos para fazer investimentos junto aos bancos de fomento, como o BRDE, BNDES e Badesc. Nesse ano, até fevereiro, já tivemos um grande investimento anunciado em São Lourenço do Oeste, com a Kellogs/Parati, depois de um processo que foi disputado inclusive por outros países. Também tem a GM, com um investimento de quase R$ 2 bilhões para ampliação da planta industrial, em Joinville. Isso também foi o resultado de uma disputa com outros Estados. Em Lages, a Berneck anunciou um investimento de R$ 800 milhões. Em razão de uma cláusula de confidencialidade não posso revelar nomes, mas temos pelo menos outros 10 investimentos que estão em fase de conclusão de entendimentos técnicos com o governo, e que nos próximos dias deverão ser anunciados.

RCN - Em 2017 surgiram as denúncias relacionadas à Odebrecht e logo em seguida as delações envolvendo seu nome em supostos esquemas de favorecimento da JBS. Possivelmente isso causou um dos momentos de maior turbulência para o governo. Como foi lidar com essas questões e enfrentar este momento?

Colombo - Foi um dos momentos mais difíceis da minha vida. Duro mesmo, de muito sofrimento. Nunca imaginei que isso pudesse acontecer comigo. Mas é preciso ser forte, estar preparado para esclarecer a situação às pessoas. Fizemos uma defesa bastante robusta e que está na Justiça para análise. Fica claro que não vendemos nenhuma ação da Casan para a Odebrecht. Essa empresa nunca realizou nenhuma obra em Santa Catarina, não tem nenhum contrato, nunca recebeu nada. A questão da JBS era a legislação vigente. Eles fizeram doação para campanha de muitos políticos em Santa Catarina por meio dos partidos. O diretório Nacional do PSD recebeu uma doação, que transmitiu ao diretório estadual, que aportou na campanha, e isso está na prestação de contas. São dados oficiais.

 RCN - Isso acabou motivando alguns pedidos de impeachment junto à Assembleia Legislativa, juntamente com outras alegações. Esses movimentos causaram transtornos para a gestão? Alguma política de governo chegou a ser revista em função disso?

Colombo - Eu sabia que se eu me abatesse eu iria trazer a crise para dentro do governo. Ao invés de nós cuidarmos da sociedade, nós teríamos que cuidar da crise. Então, eu precisava ser ainda mais forte do que eu normalmente era. Foi um desafio muito grande e é até hoje. Mas temos que enfrentar e eu tenho certeza que eu posso esclarecer isso.

RCN - O perfil político do Raimundo Colombo passou por mudanças desde a entrada na gestão do Executivo, lá em 2011?

Colombo - A gente aprende muito. Foi um período turbulento. É um furacão por dia (risos). Passamos pela maior crise da história do Brasil. E a crise tem várias faces, inclusive essa pessoal que nós falamos [caso Odebrecht e JBS]. Crise dos desafios da economia, da própria complexidade do serviço público, com a sociedade cada vez mais exigente. Então, esse período exigiu muito. Me dediquei muito à parte administrativa do governo, porque senão ficaríamos iguais à maioria dos outros Estados. Você sorri menos do que sorria, tem mais cabelos brancos do que tinha, você quase não conta mais piadas (risos). Tem menos amigos do que tinha, vive menos com os amigos que você tem. O trabalho é extremamente exigente. Chega uma hora que a melhor coisa é terminar a missão e passar para outro, pois as tuas forças também se esgotam. Não me arrependo de nada, não estou triste com nada, mas tenho a consciência de que a hora é de recuperar energias, de recompor a saúde e se cuidar. Pensar um pouco em mim também.

 RCN - Algo que o senhor gostaria de ter feito e não conseguiu?

Colombo - Tem muitas coisas que eu gostaria e que eu acho que poderia ter feito, mas que atrasou ou que não deu. Não foi por falta de luta. Nós batalhamos. Mas, claro, muitas coisas tiveram um ritmo bem mais lento do que eu desejava. Em 2010, quando eu me elegi, a economia, a arrecadação, estava crescendo 16% ao ano. Era um espetáculo. Depois de 2012 tudo piorou. Em vez de pensar em investir, só se pensava em pagar a folha e pagar os fornecedores para não atrasar os serviços. Olha a diferença que isso representa. Entrei pensando em investir e passei quase o governo inteiro buscando formas de pagar as contas e não atrasar salários, ou mesmo os serviços básicos.

RCN - O senhor deixa o governo nesse momento com o objetivo de retornar ao Senado. O cenário político é conturbado. Como será a construção de uma candidatura num período que talvez seja o auge da descrença do eleitor nas instituições políticas?

Colombo - A candidatura ao Senado é uma candidatura difícil. É uma eleição imprevisível para todos os cargos, todos os políticos. Há um desgaste muito grande, uma perda de confiança significativa. Eu sinto que eu devo ser candidato.

RCN - Ainda que a instabilidade domine o contexto político, há sinalizações do que pode vir a acontecer em termos de alianças e acertos em Santa Catarina?

Colombo - As alianças vão ocorrer em julho, agosto. Agora é um período em que todos os partidos vão tentar se fortalece, deixar todo mundo dar sua opinião, fazer seu debate, ocupar seu espaço. Se fortalecer dentro dos partidos e na sociedade. Lá na frente vai haver um caminho natural. As circunstâncias não estão totalmente claras ainda. A influência da eleição nacional também é muito forte. Agora é cada um fazer seu trabalho. Pela experiência que eu tenho, vai ter muita conversa, muita opinião, muita declaração, mas decisão efetiva, só mais adiante.


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